Conflitos e Fé
Poucos conflitos na história carregam tanto peso histórico, religioso e emocional quanto a disputa entre israelenses e palestinos. Para quem observa de fora, as imagens recorrentes de violência podem parecer fruto de uma inimizade ancestral e inevitável. Mas a realidade é mais complexa — e mais humana do que os noticiários costumam mostrar.
O conflito tem raízes identificáveis, com datas, tratados e decisões que moldaram o destino de milhões de pessoas. Para entendê-lo de verdade, precisamos voltar ao final do século XIX e acompanhar os eventos que transformaram a região da Palestina no epicentro de uma das questões mais delicadas da geopolítica moderna.
Uma Terra Sagrada para Três Religiões
Jerusalém é sagrada para o judaísmo, o islamismo e o cristianismo ao mesmo tempo. Para os judeus, é o local do Templo de Salomão e o coração espiritual do povo de Israel. Para os cristãos, é onde Jesus viveu, pregou, morreu e ressuscitou. Para os muçulmanos, é a terceira cidade mais sagrada do islã — de onde o profeta Maomé teria ascendido aos céus. É impossível separar o conflito político dessa profunda dimensão espiritual.
I. As Origens: Sionismo e a Terra Prometida
No final do século XIX, a Europa vivia uma onda crescente de antissemitismo. Pogroms na Rússia, discriminação institucional e perseguições em massa levaram intelectuais judeus a articular um projeto político inédito: o sionismo. O movimento defendia a criação de um lar nacional para o povo judeu — e a Palestina, então sob domínio do Império Otomano, foi escolhida como destino, por ser a terra bíblica de Israel.
Com o início da imigração judaica em larga escala, a tensão com a população árabe local — que já habitava a região há séculos — foi crescendo. O ponto de virada diplomático veio em 1917, quando o governo britânico emitiu a Declaração Balfour, manifestando apoio à criação de um "lar nacional para o povo judeu" na Palestina, sem deixar claro como isso poderia acontecer sem prejudicar os habitantes árabes já estabelecidos.
II. O Mandato Britânico e as Promessas Contraditórias
Após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações concedeu à Grã-Bretanha o mandato administrativo sobre a Palestina, que vigorou de 1920 a 1948. Foi um período marcado por tensões crescentes: os britânicos tentavam equilibrar compromissos incompatíveis — tinham prometido apoio ao projeto sionista e, ao mesmo tempo, precisavam manter relações com o mundo árabe.
As revoltas árabes de 1936 a 1939 foram um sinal claro do nível de conflito que a imigração e a compra de terras por colonos judeus estavam gerando. O mandato britânico terminou sem solução — deixando para as Nações Unidas a tarefa de resolver o que a diplomacia colonial havia complicado.
III. 1948: O Ano que Partiu o Mundo ao Meio
Em 1947, a ONU propôs o Plano de Partilha da Palestina: a criação de dois estados — um judeu e um árabe — dividindo o território. O plano foi aceito pelos líderes sionistas, mas rejeitado pelos países árabes e pelos representantes palestinos, que argumentavam ser injusto dividir uma terra onde a maioria da população era árabe.
Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou a independência do Estado de Israel. No dia seguinte, cinco países árabes invadiram o novo estado. O que veio depois ficou marcado de formas completamente opostas na memória dos dois povos:
Para os israelenses, foi a Guerra da Independência — o renascimento de uma nação após dois milênios de exílio e após o horror do Holocausto. Para os palestinos, foi a Nakba — a Catástrofe. Cerca de 700 mil pessoas fugiram ou foram expulsas de suas casas. Mais de 400 aldeias foram destruídas. Famílias que haviam vivido ali por gerações tornaram-se refugiadas da noite para o dia.
Os armistícios de 1949 deixaram Israel com um território maior do que o plano da ONU previa, a Cisjordânia sob controle da Jordânia e a Faixa de Gaza sob o Egito.
IV. Guerras, Ocupação e Resistência
Em apenas seis dias, Israel derrota Egito, Jordânia e Síria, passando a controlar Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã. Começa então a construção dos assentamentos israelenses nos territórios ocupados — prática que a comunidade internacional considera contrária ao direito internacional.
Uma revolta popular palestina contra décadas de ocupação israelense. Marcada por manifestações, greves e confrontos, o movimento deu visibilidade global à causa palestina e pressionou por negociações.
Israel e a OLP se reconhecem mutuamente. Yasser Arafat e Yitzhak Rabin apertam as mãos na Casa Branca. Um momento raro de esperança — que logo se desfez. As questões mais difíceis (Jerusalém, refugiados, assentamentos, fronteiras) foram deixadas para negociações futuras que nunca chegaram a um acordo. Rabin foi assassinado em 1995 por um extremista israelense contrário ao processo de paz.
Mais violenta que a primeira, incluiu atentados suicidas e operações militares israelenses de grande escala. O fracasso das negociações de Camp David daquele mesmo ano enterrou as esperanças geradas por Oslo.
V. As Questões que Persistem Hoje
Décadas após o início do conflito, as mesmas disputas fundamentais continuam sem solução. Os assentamentos israelenses na Cisjordânia seguem crescendo, fragmentando o território palestino. Jerusalém permanece uma cidade dividida na prática, reivindicada por ambos os povos como capital.
Os pontos que precisam ser resolvidos para haver paz
- Fronteiras definitivas entre Israel e um futuro estado palestino
- Status de Jerusalém — sagrada e reivindicada pelos dois lados
- Destino dos assentamentos israelenses na Cisjordânia
- Direito de retorno dos refugiados palestinos de 1948 e seus descendentes
- Segurança de Israel frente a grupos armados como o Hamas
- Reconhecimento internacional de um Estado Palestino
O Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2007, não reconhece Israel e utiliza ataques armados como estratégia de resistência. Israel responde com operações militares que invariavelmente atingem a população civil. O ciclo de violência se repete — e quem paga o preço, sempre, são as pessoas comuns dos dois lados.
VI. Uma Reflexão Necessária
O conflito israelo-palestino não é uma guerra entre o bem e o mal. É uma tragédia humana complexa, na qual dois povos reivindicam, com razões históricas distintas, o direito sobre o mesmo pedaço de terra — um pedaço de terra que, não por acaso, é considerado sagrado por metade da humanidade.
Compreender suas origens é o primeiro passo para sair do ciclo de desumanização que alimenta o ódio em ambos os lados. Nenhuma solução duradoura virá enquanto a história for contada apenas de um ângulo. A paz, se um dia vier, precisará reconhecer o sofrimento de ambos os povos — sem exceção.
"A terra é pequena. A história é longa.
E o mundo ainda não encontrou a resposta."
Em memória de todas as vítimas civis deste conflito — de todos os lados.
Fontes e Referências
CNN Brasil — Como começou o conflito entre Israel e palestinos
BBC Brasil — Israel e palestinos: entenda a origem do conflito
Universidade Metodista — Por que judeus e palestinos vivem em conflito?
Mundo Educação (UOL) — Conflitos entre Israel e Palestina
Wikipédia — Conflito israelo-palestino
CNN Brasil — Disputa Israel x Palestina: professor explica as origens
Câmara dos Deputados — O conflito entre árabes e judeus e a longa busca pela paz no Oriente Médio

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